segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Brighter than the Moon

Ele estava andando pra casa. A volta era sempre a mais difícil, até porque já estava cansado do dia exaustivo que teve na faculdade. Sempre teve medo de morar sozinho, saiu de casa, no interior de Minas Gerais, direto pra um apartamento dividido com um colega de curso.
Suspirou ao lembrar do roomate. Não poderia entrar em casa porque o amigo estaria acompanhado, de acordo com a mensagem recebida na última aula que teve, chata por sinal. Poxa, era sexta-feira, 18h10, o que mais queria era chegar em casa, tomar um bom banho quente, colocar seu pijama de flanela estampado com o personagem Stewie Griffin de Family Guy, botar Harry Potter no dvd e assistir a noite toda tomando coca-cola zero.
Pensou em ligar pra Rafael. Fazia dias que não se viam e ele sentia uma saudade muito grande de sua companhia e de seu beijo. Talvez, quem sabe, não passasse aquela noite assistindo filme sozinho. Talvez pudesse aproveitar aquela sexta.
Mas não. Melhor não. Rafael fora muito estranho na última vez que se falaram pelo msn. Vai ver é por isso que eles não se falaram direito, Rafael deve estar de saco cheio dele. Baixou a cabeça pra calçada e aumentou o volume da música que estava escutando no fone de ouvido. Se achou gordo, feio e chato. Só podia ser isso. Vai ver o papo chato de nerd que tinha deve ter assustado Rafael.
Continuou andando e pensando o quanto ele devia ser insuportável e horroroso. Era baixinho, e gordinho e não conseguia falar direito com as pessoas que se interessava com medo de levar fora. Prometeu a si mesmo que entraria na academia no dia seguinte, pararia de fumar e de beber refrigerante. Álcool não, não tinha como.
A música que escutava acabou e "This is the night" começou, música do filme de Harry Potter. Deu uma risada e sacodiu a cabeça. Como ele pode ser tão criança, tão infantil? Ia chegar em casa e estudar. Assim que seu colega terminasse o que estivesse fazendo com a companhia, claro.
Continuou caminhando, arrumando a mochila que não parava de escorregar no ombro. Pensou de novo no dia, sexta-feira, e no desperdício que seria se ficasse em casa estudando ou assistindo filme. Afinal, é pra isso que serve o domingo. Pegou o celular de novo e mandou uma mensagem pra sua amiga Patrícia: "barzinho hoje, jaé?"
Um tempo depois recebeu a resposta: "Jaé! Te encontro no bar 20h. bjo". Teria, pelo menos, um bom tempo pra tomar banho e entrar na internet pra ver os emails. Quem sabe Rafael não tenha mandado um scrap, email, tweet ou o que quer que seja, chamando pra sair.
E teria que ligar pra mãe pra pedir mais dinheiro, que o dele já estava acabando. Lembrou da festa que fora no sábado passado. Pagou caro pra entrar e beber e nem foi tão boa assim, Rafael tinha viajado...
Ficou irritado consigo mesmo. Não podia acreditar no quanto era dependente das pessoas. Queria mesmo era namorar, mas por favor! Não precisava ser dependente de alguém desse jeito. Tinha muitos amigos, pessoas que ele gostava e que gostavam dele. Rafael era só mais um que o fazia feliz. Só mais um. Em pouco tempo estaria se auto-sabotando de novo.
Percebeu que estava desligado das coisas quando esbarrou em uma senhora que saia do mercado. Pediu desculpas e ajeitou os óculos. Deu mais alguns passos e já estava no seu prédio. Procurou as chaves no bolso. Não achou. tentou no bolso menor da mochila. Entre papéis de balas e chicletes, canetas sem tintas e camisinhas ganhadas dos amigos em seu aniversário de 18 anos, achou o chaveiro que ganhou de uma farmácia e abriu a porta.
Seu Geraldo, o porteiro, estava dormindo. Virou pro lado e se olhou no espelho. Sorriu, fez careta, ficou sério e se olhou intensamente. Uma pessoa que estivesse a metros de distância conseguiria ver aquelas olheiras enormes que tinha atrás dos óculos. O rosto era muito redondo, cara de bolacha.
Revirou os olhos e seguiu em frente. Subiu as escadas até o terceiro andar e encontrou o companheiro de quarto na porta com uma garota. Se beijavam, aparentemente se despedindo. Se espremeu entre os dois e entrou. Largou a mochila no chão e se jogou na cama. Olhou para o teto pensando no tanto de coisa que tinha pra fazer e na pouca disposição que sentia.
Olhou pros lados, viu seu pôster de Harry Potter; mandou um beijo pro Rony. Olhou pro quadro de fotos e achou uma foto com seus pais e seus irmãos e sua garganta ardeu. Sentia falta da família, sentia falta de alguém pra ficar junto.
O colega com quem morava era divertido e uma pessoa legal, mas seu relacionamento era meio restrito. Pensou que devia ser por isso a necessidade de estar num namoro, por isso que pensava em Rafael o tempo todo. Tentava muito, mas em vão.
Ligou o computador e encontrou uma mensagem de Rafael. Dizia que teve que viajar e que voltou com saudades, que queria o ver hoje. Ligou pra ele e disse pra onde iria; marcaram de se encontrar no bar.
Ficou feliz e entrou no Twitter: "Quem curte barzinho hoje?" Botou Firework da Katy Perry pra tocar bem alto, pegou sua toalha e foi ao banheiro tomar banho. Estava no chuveiro quando escutou o colega gritando, reclamando do barulho.
Deu uma risadinha e continuou a cantar.

Boom, boom, boom... Even brighter than the Moon, Moon, Moon...

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